Genealogias Pedro Nava escreve, em Baú de ossos, que as linhagens familiares não se originam da pureza completa, assim como não é formada somente por pares impuros; em toda família há ramos nobres e ramos plebeus. Viva a mistura. “Finalmente, as genealogias servem à vaidade. Pouco, porque pensando bem, as árvores de família nunca se apresentam copadas, mas mostrando no passado o galho único que não ficou esquecido, o que foi documentado, o que pode aparecer. Porque não existem famílias que não venham, a um só tempo, do trono e da lama. Basta um simples cálculo matemático para provar essa verdade. Um é o que fala, com dois genitores, quatro avós e oito bisavós. Se formos passado adentro, os bisavós desses bisavós serão sessenta e quatro. Se subirmos, outras sete gerações, todos temos oito mil e cento e noventa e dois avós décimos-segundos. Se somarmos mais sete os antepassados contar-se-ão em um milhão, quarenta e oito mil quinhentos e setenta e seis. Um milhão de reis? Um milhão de pulhas? Nada disto. Uma boa mistura de poucos reis e numerosos vilões.” (o negrito é por minha conta).
Escrito por Roberto Carlos Ribeiro às 15h30
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Viver a vida do outro Entre os “122 livros para entender o mundo”, lançado pela editora Abril como edição especial da revista Super Interessante, 17 títulos são sobre biografia ou autobiografia. A necessidade de escrever a própria vida, ou de saber sobre a vida do outro, impulsiona cada vez mais o mercado editorial de muitos países. A respeito dessa necessidade de estar em contato com o outro, escreve Fernando Gabeira, em O que é isso, companheiro?: “As perguntas nascem uma das outras, insaciavelmente. Não são as respostas que realmente valem alguma coisa. É a vontade de viver o que o outro viveu em todos os seus detalhes, de que o outro tenha vivido toda a nossa fantasia sobre o lugar proibido”. Viver o que o outro viveu atiça a nossa curiosidade não pelos fatos narrados em si, mas pela sensação de estar vivendo aquilo que não vivemos, por covardia, por falta de tempo, pelas opções de outros caminhos. A leitura de biografias e autobiografias nos transmite a sensação de viver uma outra época, um outro espaço, um outro tempo, uma outra VIDA.
Escrito por Roberto Carlos Ribeiro às 11h37
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“Agarrei-me à literatura aos onze anos” No livro Malagueta, Perus e Bacanaço, de João Antônio (1937-1996), editado pela Cosac Naify, há um texto introdutório em que o autor expõe algumas alegrias e agruras sobre o ato de escrever. Percebe-se pela escrita de João Antônio, a sua necessidade de “lutar” com as palavras (como diz Drummond em um dos seus poemas) como forma de expressão e de vida. Eis a sua experiência na composição dos contos: “Malagueta, Perus e Bacanaço [...] estava pronto em 12 de agosto de 1960, data em que veio um incêndio, queimou minha casa, lambeu tudo. Fiquei sem roupas, sem casa, sem livro. Naquela casa, naquele meu quarto, eu trazia guardadas as coisas que me acompanhavam desde os cinco anos de idade. Eu não escrevia em outro lugar que não fosse o meu quarto porque fora dele eu não sabia escrever. A vida foi me dando porradas, me dando, até que aprendi a escrever em qualquer canto. Sem precisar de casa ou de quarto. Qualquer boteco é lugar para escrever quando se carrega a gana de transmitir. Gana é um fato sério que dá convicção.” João Antônio teve de recompor o conto Malagueta, Perus e Bacanaço a partir de rascunhos que deixara com amigos para uma primeira leitura e com a recuperação pela memória do que havia escrito. O livro foi lançado em 1963. “A alquimia literária me esgota. Qualquer página me custa, a mim, que para outras redações tenho facilidade. Escrever é outra dimensão e é a única comunicação de verdade com o mundo, porque falando com pessoas eu não me consigo transmitir. E quando tento...”.
Escrito por Roberto Carlos Ribeiro às 14h54
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A desgraça dos poetas O poema de Álvares de Azevedo (1831-1852) revela o desvalor da obra artística daqueles que investem em literatura, e principalmente em poesia: Minha desgraça Minha desgraça, não, não é ser poeta, Nem na terra de amor não ter um eco, E meu anjo de Deus, o meu planeta Tratar-me como se trata um boneco... Não é andar de cotovelos rotos, Ter duro como pedra o travesseiro... Eu sei... O mundo é um lodaçal perdido Cujo sol (quem mo dera!) é o dinheiro... Minha desgraça, ó cândida donzela, O que faz que o meu peito assim blasfema, É ter para escrever todo um poema, E não ter um vintém para uma vela.
Escrito por Roberto Carlos Ribeiro às 18h46
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Na “Revista Aplauso” Fabrício Carpinejar Auto-ajuda lírica - Acompanhe a produção contemporânea e revise os principais clássicos. Um bom poeta está de pé porque uma estante de livros o segura. Ler principalmente o que não se gosta para ampliar o estilo. Sem negar sequer uma vez, não há como se afirmar.
- Elabore uma visão de mundo a partir de uma obra. Não solte poemas aleatoriamente. Crie um elo, uma ligação orgânica entre os escritos. Seja poeta de livros, mais do que de poemas.
- Não escreva para os poetas, mas para os leitores. Poesia não é seita ou religião para alguns escolhidos. Poesia é democracia, gera escolhas. Não escrevemos para nos dar uma segunda chance, escrevemos para que a nossa segunda chance seja uma experiência fundadora para quem lê.
- O excesso de talento pode desembocar no isolamento. Cuide para não transformar a vida num quarto trancado. Saia de casa. Observe e escute mais do que fale. Mantenha a simplicidade da urgência: escreva como quem pede um copo de água.
- Tenha senso de humor e autocrítica. Rir é arejar os limites. Não se leve tão a sério para não cair na paranóia – “todos me sabotam!”. Ou na depressão – “ninguém gosta de mim!”.
- Não se conforme com aquilo que está sendo declarado de você. O rótulo pega fácil. Mude de posição. Esteja onde ninguém espera. O poeta é um ilusionista.
- Colabore com jornais e revistas e tente mexer no comportamento mais do que na literatura. Não leia o caderno cultural, mas o jornal inteiro.
- Não recite poemas no lugar de falar com o público. O poema não é seu irmão mais velho ou seu porta-voz. Não aplique aquela velha desculpa: “Tudo o que eu desejava dizer está no livro”. Não está; o livro é o começo.
- Não faça poemas sobre o ato de fazer poemas ou sobre a importância da poesia. Moralismo didático irrita, assim como o deslumbramento com sua condição. Poesia é esquecer a literatura para interferir no cotidiano.
- Um poema não é feito com certezas. Pergunte mais do que responda. Esteja lado a lado com o ouvinte, não um degrau acima ou abaixo.
- Ao ser premiado, agradeça. Ao não ser premiado, também agradeça e aproveite que não foi reconhecido para fortalecer o silêncio.
Escrito por Roberto Carlos Ribeiro às 17h33
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Rita no pomar Curto, intenso, objetivo, o romance de Rinaldo de Fernandes Rita no pomar (7 Letras) é uma narrativa atual e bem-vinda. Com capítulos concisos, alguns chegam a ter uma única linha, o escritor constrói uma história intrigante, explicitada pelo diálogo entre a personagem Rita e seu cachorro Pet. Solidão pouca é bobagem; amargando desilusões amorosas, uma atrás da outra, Rita se lamenta, mas também age contra esse sentimento cada vez mais contemporâneo, e vai encontrando soluções para os seus problemas de relacionamento (com os parceiros, com a mãe, com os animais e com a vida).
Escrito por Roberto Carlos Ribeiro às 12h46
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África pós-moderna João Melo, em O dia em que o pato Donald comeu pela primeira vez a Margarida, editado pela portuguesa Caminho, cria contos que exploram o cotidiano de Angola, com muita ironia. A começar pelo subtítulo da obra, 18 histórias quase pós-modernas. O pós-modernismo está explicitado na maioria das histórias, quando um narrador intrometido faz questão de apontar as características relativas à maneira de se escrever, principalmente, na contemporaneidade. A metalinguagem também se faz presente na tessitura da narrativa com jogos de palavras, de cenas e referências a uma sociedade baseada na cultura ocidental. Estão citados, de forma transversal, alguns dos pensadores mais caros à teoria da literatura na atualidade: Lyotard, Linda Hutcheon, Fredric Jameson, Mikhail Bakthin. De certa forma, João Melo constrói nos enredos de seus contos as estruturas projetadas pelas teorias, ou seja, o pensamento desses estudiosos, que muitas vezes escrevem de forma nebulosa, é transformado claramente nas histórias do contista. Às vezes, as intromissões do narrador chegam a ser cansativas, de tão enfáticas. Será essa ocorrência na escrita uma das características dos tempos pós-modernos? (Trecho) “Mais nenhuma outra identificação será acrescentada e muito menos quaisquer outros detalhes, perfeitamente inúteis na voragem incaracterística e global do mundo actual, tais como filiação, origem, naturalidade e até mesmo sinais particulares. Em época de implosão de muros, de pirataria de patentes, de eclectismo geral, de misturas inusitadas, de transfusão de células e de clonagens, apenas os pobres de espírito têm tempo e energia a perder com a grotesca tentativa de se manterem grudados a identidades restritas e fechadas em si mesmas.”
Escrito por Roberto Carlos Ribeiro às 11h52
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A vida como ela é A reunião de contos de Nelson Rodrigues no volume editado pela Companhia das Letras A vida como ela é traz os textos publicados pelo autor no jornal Última Hora entre os anos de 1951 a 1961. Segundo Ruy Castro, que organizou a obra, “o preconceito impediu que ele [Nelson Rodrigues] fosse reconhecido como um dos grandes contistas da língua”. Ainda segundo Ruy, “Nelson criou quase 2 mil histórias de amor, paixão e morte em torno de um tema único e obsessivo – o adultério”. O tema único é o que faz a leitura dos contos ser cansativa. Apesar da escrita fluida, das frases curtas e objetivas, com o passar das páginas fica uma sensação de “já visto”, ou “já lido”, que vai solapando o avanço dos contos. Talvez a leitura recomendada seja a de conta-gotas; ler aos poucos; por diversos dias; ou até meses; para não se cansar do mesmo enredo que, por melhor que seja o escritor, acaba por ser monótono.
Escrito por Roberto Carlos Ribeiro às 13h21
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Representações literárias “Uma língua tem diferentes poéticas (palavras, sonhos, ressonâncias e imagens) que conformam imaginários diversos, por conseguinte, linguagens diferentes, que o mesmo é dizer, expressões diferentes.” Inocência Mata
Escrito por Roberto Carlos Ribeiro às 13h03
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Senhor das palavras Na edição brasileira da peça O balcão, de Jean Genet, da editora Abril Cultural, de 1976, há um posfácio do autor comentando algumas montagens de sua peça. Genet não gostou de muitas delas: “Em Londres, no Arts Theatre – eu vi – O balcão foi mal representado”. “Em Nova York o diretor simplesmente eliminou tudo que se referia à revolução”. “Em Paris, as atrizes substituem uma palavra por outra, o diretor faz cortes no texto”. O autor sofre da paranóia de “autor-pai” da obra que quer ver o seu “filho” bem encaminhado na vida. José de Alencar também sofria do mesmo complexo. Em quase todos os seus livros há prefácios e posfácios em que ele tenta explicar os sentidos de seus romances, evitando, assim, que eles sejam interpretados de forma “errada”. Quando alguém coloca publicamente uma criação sua, se obriga a deixar que ela seja analisada de forma subjetiva. Não tem como forçar uma única interpretação, e justamente a do autor da obra. A dele é somente mais uma. Jean Genet termina a sua aula sobre encenação afirmando o sentido geral da peça: “Ainda uma coisa: não representar esta peça como se fosse uma sátira disto ou daquilo. Ela é – portanto será representada como – a glorificação da Imagem e do Reflexo. Seu significado – satírico ou não – só aparecerá neste caso”.
Escrito por Roberto Carlos Ribeiro às 09h28
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Imagem da imagem da imagem Terminei de ler a peça de Jean Genet O balcão. Publicada em 1956, trata da representação de imagens de profissionais como general, juiz, chefe de polícia, bispo, rainha. Esses personagens estão localizados em um bordel denominado “O balcão”. Ali, pessoas “comuns” se transformam em altas personalidades sociais realizando seus sonhos de poder. O lugar, tradicionalmente ligado ao sexo, é utilizado como palco para encenar relações de força. Junto às figuras mitificadas, surgem personagens secundárias como o mendigo, a ladra, os revoltosos compondo uma teia significativa das camadas sociais. O mais instigante é que não se pode deduzir se tudo o que ocorre na peça é real ou é a representação de uma realidade. Tudo é ambíguo; a verdade e a mentira estão misturadas em cada diálogo, em cada cena, em cada figurino. O balcão trata, sobretudo, da necessidade de se assumir, a cada dia, papéis na vida. É exatamente isso o que diz a última fala da dona da “casa das ilusões”, Irma: “Foi preciso tanta luz...mil francos de eletricidade por dia!...Trinta e oito salões...Todos dourados, e todos com uma maquinaria capaz de encaixar uns nos outros, de conjugá-los...E todas estas representações para que eu fique sozinha, dona e assistente desta casa e de mim mesma...(...) Carmen?... Carmen?...Tranque as portas, meu bem, e cubra os móveis... Daqui a pouco, será preciso recomeçar... acender tudo de novo... vestir-se... Vestir-se...ah, as fantasias! Redistribuir os papéis...assumir o meu....preparar o de vocês... juízes, generais, bispos, camareiros, revoltosos que deixam a revolta congelar, vou preparar meus trajes e meus salões para amanhã... é preciso voltar para casa onde tudo, não duvidem, será ainda mais falso que aqui...Agora, saiam...Passem à direita, pelo beco... Já é de manhã.”
Escrito por Roberto Carlos Ribeiro às 20h29
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Por trás dos vidros Conhecido no espaço das letras brasileiras como tradutor das obras de Franz Kafka (1883-1924), Modesto Carone, além de ensaísta e crítico, é ficcionista. Por trás dos vidros é uma coletânea de contos editados em livros anteriores: As marcas do real (1979), Aos pés de Matilda (1980), Dias melhores (1984), e de contos publicados no jornal Folha de São Paulo entre os anos de 1985 e 2001. Reunidos graficamente conforme as edições anteriores, os contos de Modesto Carone têm como peculiaridade, que os mantêm coesos, o homem em constante visita ao seu interior, como se realizasse viagem para dentro de si. O resultado desse passeio é exteriorizado das mais diversas maneiras, mas sempre com impacto, tanto nas vidas das personagens quanto na expectativa do leitor. Tais ações, e muitas vezes, a falta delas, explicitam as ambigüidades inerentes às personalidades desses seres de papel. Um dos recursos usados pelo autor para demonstrar as rupturas da unicidade do ser está na duplicação da personagem em observador e objeto observado. Tanto é que, em vários deles, elas saem de seus corpos e se enxergam a si mesmos na realização dos movimentos mais triviais, ou, então, prestes a cometerem os mais ensandecidos atos. Da mesma forma, algumas personagens se duplicam em outros seres como é o caso de Matilda que às vezes se apresenta como Irmã; ou o narrador de “O ponto sensível” que se transmuta em seu próprio filho. Assim, andam, lado a lado na narrativa, o cotidiano de homens solitários, casais desestruturados e memórias de infância juntos a ações das mais estranhas e bizarras. O dia-a-dia de uma vida que se aparentava normal, de repente se desestrutura para o mais inverossímil dos desfechos, exibindo o homem perdido e desconcertado de um mundo contemporâneo que nos é apresentado em pequenas pinceladas. A paisagem que se vislumbra com mais exatidão não é o cenário das cidades e casas, que dão apenas o suporte para se explicitar algo maior, o ser humano, vivo, em meio às suas lembranças e ao peso de sua consciência. Viver, para essas personagens, é como procurar pela fenda mais larga por onde se possa passar para uma outra realidade. Paradoxalmente, suportar seus cotidianos não parece ser um fardo, pois existe uma leveza, uma rarefação nas atitudes e nas conclusões com que as personagens se descobrem, ou tentam se descobrir, inseridas no mundo. É como se elas fossem observadas através de uma película fina, o vidro, por exemplo. O homem dessas narrativas que olha para dentro de si não encontra obstáculos imensos ou opacos; muito pelo contrário, ele consegue, rapidamente, se observar através dessa tela translúcida, pela qual pode se ver, mas raramente se compreender. Os contos de Por trás dos vidros não são surreais, nem fantásticos. Eles exemplificam, através de suas narrativas estranhas, a vivência das personagens em uma sociedade contemporânea. Como a maioria dessas narrativas foi escrita na época da ditadura militar brasileira, as metáforas são plenamente cabíveis. Os mundos ficcionais de Modesto Carone podem ser relacionados à opressão, à falta de liberdade desse contexto brasileiro. Mas editados agora, não perderam em nada na estranheza de suas fabulações. Elas continuam atualizadas, mais reais quando percebemos que o homem continua solitário, perdido, tentando se encontrar como ser pertencente a um mundo que não lhe faz sentido. Desse ponto de vista, não tem como não se pensar na influência da narrativa kafkiana nas entrelinhas da ficção de Modesto Carone. Estão lá as mesmas imagens esdrúxulas de um homem que não consegue compreender a engrenagem da sociedade em que vive. Se seguirmos o tom da epígrafe que abre o livro, e que trata das palavras de Theodor Adorno a respeito do sofrimento do homem ligado aos momentos sociais de um mundo alienado, podemos vislumbrar essa relação nas narrativas do mundo diegético com o contexto histórico-social do homem contemporâneo. Um bom exemplo de correspondência sociedade alienada/homem sofrido está no conto “As marcas do real”. A realidade da narrativa se apresenta no fato dela ser uma pequena biografia do poeta austríaco Georg Trakl (1887-1914), morto aos 27 anos, de uma overdose de cocaína. A frase final do conto retoma a narrativa desde seu início, pois se trata de uma sentença que o poeta Rainer Maria Rilke teria feito a si mesmo: “quem teria sido ele?”, se referindo ao poeta morto. A partir daí se recicla a pequena biografia do jovem poeta. Sua história parece surreal, como as histórias de outras personagens do livro de Modesto Carone. Na sua vida sofrida apareceram o pai vulnerável, a mãe com transtornos psicológicos, o amor incestuoso pela irmã, a dependência de drogas fortes, a participação na Primeira Guerra Mundial e, por fim, o suicídio. Eis aí uma história real que se encaixa perfeitamente nas histórias ficcionais dos contos de Por trás dos vidros. Georg Trakl é apenas mais um dos oprimidos pela realidade da vida nessas narrativas. Cada um, a seu modo, procura se encaixar no mundo: o viúvo que vê o seu passado na sala de casa; o suicida; o homem que se descobre integrado à cama; o funcionário que trabalha agachado sob a mesa; o homem que se depara sob a mira de um atirador; a personagem que vive com os ratos nos esgotos; as dúvidas e as inseguranças da vida após a separação do casal, etc. Nos contos de Por trás dos vidros não se encontram relatos felizes, nem experiências edificantes. Encontra-se somente o homem solitário. Mais um perdido nas cidades; mais um perdido nas narrativas contemporâneas. O homem frente a frente consigo mesmo, sem espaço para o diálogo, vivendo o seu derradeiro momento a todo instante, como é o homem de João Gilberto Noll, de Caio Fernando Abreu, de Cristóvão Tezza e outros. Pensando bem, o homem solitário de quase todas as narrativas literárias, pois independente das ações no tempo e dos companheiros de trajetória, o homem sempre está só consigo. O homem de Modesto Carone é apresentado ao leitor como um ser sem medo, translúcido, leve no seu ato de viver a sua vida pesada. Ele se projeta sem mágoa ou tristeza, estoicamente assumindo o que deve vir, sem alarde, mas sem alienação. Ele tem consciência do seu entorno e das conseqüências de cada ato seu, mesmo que essa ação se desvirtue para outros caminhos. Ele é um homem consciente de seu modo de estar no mundo. Ele é o centro do problema, como diz uma das personagens, em “Reflexos”: “Isso significava que o cerne da questão estava em mim, não neles”. Tanto o problema quanto a sua solução estão no interior do homem e, para encontrá-los, só é preciso viajar para dentro, pois esse é o caminho, para dentro, sempre.
Escrito por Roberto Carlos Ribeiro às 18h44
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O porto quase seguro de Noll Harmada, de João Gilberto Noll, traz em seu enredo a história de um ex-ator de teatro. Vagando por diversos lugares, ele permanece em um asilo por muitos anos e depois se encontra dirigindo uma nova atriz no teatro da cidade de Harmada. O início do romance lembra os narradores de outras obras de Noll. São personagens que vagam sem sentido e sem rumo, vivendo seus instantes no mundo sempre carregando um pesado fardo existencial; tanto que em suas narrativas o lado psicológico é muito mais explorado do que o espaço ao redor; são páginas e páginas de indagação sobre o sujeito. Em Harmada, depois das primeiras páginas em que se deduz que se vai adentrar novamente às histórias fragmentadas e esquizofrênicas do escritor, o enredo toma assento e garante uma leitura quase fluida, linear. O equilíbrio entre as cenas de espaço e de percepção existencial do narrador dá a sensação de conforto, como há muito não se lia nas narrativas de João Gilberto. Como escreve José Castello na orelha do livro, “há em Harmada o vislumbre de uma esperança, inexistente em seus livros anteriores”. Um trecho do livro: “Saio do consultório, entro no elevador, passo pela portaria do prédio, ou, sei lá, entro no elevador, passo pela portaria do prédio, saio do consultório, pois não interessa a ordem com que eu possa viver o enfado desta armação diária de ir a dentistas, me olhar no espelho de cuecas entre o experimentar uma calça e outra nas exíguas cabines de provar roupas das lojas”.
Escrito por Roberto Carlos Ribeiro às 16h12
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Texto e contexto É estranho um crítico de literatura dizer que em um determinado romance, conto ou texto existe um enredo principal e um secundário que ele denomina de “pano de fundo”. Nada em um texto deveria ser relegado a um segundo plano. Tudo o que ali está faz parte da ficção. Não existe justificativa para que algum contexto seja relacionado como parte menor para sublinhar algo maior. “Pano de fundo” é subterfúgio, “modo de dizer” que não encontra lugar na análise e interpretação; é perspectiva que foi relegada no estudo, mas não deve ser denominada como se fosse fonte de segunda leitura. Se uma história se passa em algum lugar e tempo determinado, essas caracterizações não são “pano de fundo” ou cenários de pouca qualidade para que se possa sobressair os atores principais. O cenário de fundo é o contexto que alicerça a narrativa. O “pano de fundo” é a base da constituição do enredo; é espaço e tempo determinados que possibilitam a construção de todo o texto.
Escrito por Roberto Carlos Ribeiro às 22h33
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O eleito do sol Em O eleito do sol, o caboverdiano Armênio Vieira, prêmio Camões de Literatura em 2009, apresenta um personagem que a crítica chama de “pícaro” e que podemos aproximar do tipo “malandro” brasileiro. O escriba sem nome consegue sobreviver a vários percalços e perigos, sempre usando da inteligência em detrimento da força. O espaço é o antigo Egito de faraós, múmias e pirâmides. O tempo, indeterminado, nos remete à história de séculos passados. No entanto, percebe-se a ironia na representação de Cabo Verde da atualidade sob as linhas da história egípcia. Escreve Inocência Mata: “O eleito do sol começa por estilhaçar a caboverdianidade `tradicional´, feita de marcas de insularidade geográfica, ambiental, sociocultural, ideológica e psicológica.” O escritor desloca o cenário reafirmando toda a problemática de seu país através da visão de um outro “estado político”. (Um trecho do livro) Prólogo Apareceu-me num sonho. “Sou Akenaton”, disse-me ele. “Há cinco mil anos eu era escriba no Egipto. Fui também exímio contador de histórias. Um dia, tornei-me faraó através de um sonho. As minhas reencarnações foram três: uma na Ásia, a segunda na Europa e a última na pátria dos peles-vermelhas. Sucessivamente, fui negro em África, amarelo na China, branco no país dos ingleses e vermelho na América; fui homem de todas as raças. E tu vais contar a minha história mais antiga”. À semelhança de Caedmon – o primogénito dos poetas sacros da Inglaterra -, tentei esquivar-me ao que se me antolhava um labor inexecutável. Mas Akenaton voltou e tornou a voltar. E um dia pus-me a contar a inacreditável história de um escriba egípcio.
Escrito por Roberto Carlos Ribeiro às 14h27
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BRASIL, Sul, PORTO ALEGRE, Homem, de 36 a 45 anos, Livros, Arte e cultura
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